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Rua Primeiro de Março | Antiga Rua Direita

A Rua Primeiro de Março, foi o segundo caminho mais importante da cidade do Rio de Janeiro no século 16, ligando o Morro do Castelo ao Mosteiro de São Bento.

A cidade floresceu, e ao longo dos anos a rua foi um teatro vivo da história da cidade refletindo suas transformações no comércio e arquitetura. Decorridos séculos, a Rua continua de máxima importancia no cotidiano da cidade.

Origens e história

Falar sobre a história do Rio, assim como sobre a história de algumas ruas se torna um tanto complicado para seu entendimento, pois um "pedaço" da história do Rio de Janeiro foi literalmente apagado do mapa, ou seja, com o arrasamento do Morro do Castelo, local onde efetivamente a Cidade começou a se estabelecer, após a luta com os franceses e tamoios, hoje em dia não existe mais.

Rua Direita | Rio de Janeiro | Início do Século 19

Até antes do início dos assentamentos no Morro do Castelo, as bases da cidade fundada em termos por Estácio de Sá, era uma aldeia no Morro Cara de Cão, ao lado do Pão de Açucar. Por decisão de Mem de Sá, a então cidade que nasceria de pedra e telha teria como novo local de assentamento o Morro do Castelo, onde um forte seria erguido.

O caminho que viria a ser a Rua Direita, era um prolongamento do antigo caminho que viria também a ser a antiga e extinta Rua da Misericórdia, que por sua vez chegava ao Largo da Misericórdia, que ainda existe, no local onde era o sopé do Morro do Castelo. Era do Largo da Misericórdia, o primeiro Largo do Rio de Janeiro, de onde se pegava a subida para o morro, através da Ladeira da Misericordia. Desta ladeira, ainda existe um trecho que foi mantido.

Basicamente falando, a Rua Direita e Rua da Misericordia, no início da colonização, no século 16, eram um só caminho embora o trecho da extinta Rua da Misericordia que contornava o Morro do Castelo fosse encurvada, seguindo o contorno do morro.

Assim sendo, a Rua Primeiro de Março ou antiga Rua Direita sugiu como um caminho, que ligava o Morro do Castelo ao Mosteiro de São Bento, que por sua vez ficava no topo do Morro de São Bento. E a primeira construção no local teria sido uma pequena ermida (igrejinha) no local onde hoje é a Igreja de N.S. do Carmo ou Antiga Sé ou antiga Catedral do Rio de Janeiro. Posteriormente os Carmelitas, em 1590, iniciaram as obras do Convento do Carmo, que por algumas décadas foi a maior construção da emergente cidade, construção esta que ainda existe hoje, no mesmo local. Certamente que, ao longo dos anos, tanto o Convento como a antiga ermida tiveram acrescimos e modificações ao longos dos anos, vindo a ter a aparência dos dias de hoje.

Assim, criado um caminho junto ao mar, ligando dois pontos extremos e com um convento e igreja em frente ao local onde é a atual Praça 15, sugir a Rua Primeiro de Março, que cresceu e floresceu ao longo dos anos e séculos, e passou por inúmeras transformações.

Porque o Nome Primeiro de Março e Rua Direita?

O nome Rua Direita, segundo alguns autores, não tem à ver com o fato de ser reta, coisa que não era por inicialmente ser um caminho só, unido à extinta Rua da Misericóridia, que acompanhava parte do contorno do Morro do Castelo. O termo "Direita" vem do fato de ser um caminho através do qual se os colonizadores moviam mais facilmente, de forma direta, de São Bento para o Largo da Misericórida, que dava acesso ao Morro do Castelo.

O nome "Primeiro de Março", tem a ver com a data do término da Guerra do Paraguay, em 1870. A notícia chegou ao Rio por volta do dia 15 de Março, através de um vapor Inglês vindo de Montevideu, quando então se soube que a guerra contra o Paraguay, que já se extendia por cinco anos, havia finalmente terminado. As multidões sairam às ruas para festejar, e aclamaram Dom Pedro II e D. Teresa Cristina que acenaravam da janela do Paço Imperial. Entusiasmado, D. Pedro II desceu com D. Teresa Cristina para confraternizar com o povo, e caminhou a pé através da então Rua Direita juntamente com o povo.

Naquele dia festivo, alguém teve a ideia de chama-la de Rua Primeiro de Março e a ideia foi levada adiante, tendo então seu nome mudado pela Câmara Municipal. Embora o nome Rua Direita já fosse usado à três século, o novo nome acabou sendo adotado.

As Primeiras Construções e Fatos Históricos

No início da colonização, a rua era apenas um caminho ou praia, e possuía construções somente no lado impara ou esquerdo da numeração autal, e não era permitida construções do outro lado, para não obstruir embarque e desembarque.

As primeiras construções feitas do outro lado do caminho, foram o Forte da Cruz, que posteriormente daria lugar sobre suas fundações à Igreja da Cruz dos Militares, um dos pontos importantes e históricos da Rua Primeiro de Março. Outra das primeiras construção do outro lado da rua foi o trapiche de Ver-o-Pêso. Trapiche é a denominação genérica de armazem ou depósito próximo ao mar ou cais. Este trapiche tinha como concessionário um certo Aleixo Manuel. Esta concessão foi passada posteriormente em regime perpétuo à dinastia da família Correia de Sá, de governadores do Rio de Janeiro.

O primeiro do ricos moradores a construir uma casa na rua, foi Diogo Amorim Soares, comprador do Engenho de Açucar d´El Rey, engenho este construído pelo Governador Antonio Salema no século 16, que posteriormente passaria à Rodrigo de Freitas, que daria nome à Lagoa em cujas margens ficava o engenho.

Quando foi necessária a Construção da Fortaleza da Laje, foi decidido vender as partes do solo daquele lado da rua, que na verdade ficavam vagos em função retirada do mar, iniciando-se deste modo as propriedades particulares do lado direito da rua.

Ao longo do tempo, e em passado distante, naqueles terrenos já estiveram localizados os trapiches, a Alfândega, a Casa dos Contos (nos tempos coloniais seria "Casa do Tesouro" ou da "Fazenda"), a residência do provedor da Fazenda que posteriormente alojaria os governadores, as principais casas de comércio em determinados ramos e períodos da cidade, infelizmente o primeiro mercado de escravos, e em tempos mais modernos, a chamada Praça do Comércio.

Na então Rua Direita , foi criado por D. João VI o primeiro banco brasileiro, um embrião do Banco do Brasil, no ano de 1808. E nesta mesma época, era estabelecido também um rico e próspero comerciante, Antônio Elias Lopes, que doou à D. João VI o casarão da chácara da Quinta da Boa Vista.

Acontecimentos Importantes

Na Rua Primeiro de Março está situada a Igreja do Carmo, e portanto foi naquele local onde D. Pedro I se casou, assim como foi lá que ocorreram importantes fatos ligados à história do Brasil, principalmente ligados à familia Real e seus sucessores. A Igreja de N.S.do Carmo foi designada Capela Real, após a vinda de D.João VI para o Brasil.

O Convento do Carmo, foi ligado à um passadiço ao Paço Real, tendo então se tornado a primeira morada de D. João VI até sua mudança para o Paço Real da Quinta da Boa Vista. Sendo assim, a Rua Primeiro de Março já morada da familia Real Portuguesa.

Outro fato histórico memorável, aconteceu em 1710 quando foi o aprisionamento o invasor e corsário francês, Duclerc, que após um combate no local, foi acoado, e refugiou-se no Trapiche da Cidade. Em 1821, ocorreram graves distúrbios e conflitos na Praça do Comércio, como parte das agitações que precederam a independência do Brasil.

Comércio e Movimento

A Rua esta muito movimentada devido ao fato da Alfândega e dos trapiches no lugar, o que acarretava carga e descarga de mercadorias, no princípio da colonização na própria rua, e posteriormente em suas proximidades. Pintores viajantes como Debret, Rugendas, Thomas Enders e Chamberlain entre outros imortalizaram as cenas do cotidiano da Rua no início do século 19 e segunda metade daquele século.

Decorrida a primeira década do século 20, logo foi construído o cais do porto do Rio de Janeiro, e o movimento de carga e descarga de mercadorias passou para as áreas aterradas da Saúde, Valongo e Gamboa, onde foram construídos também inúmeros armazens. A Rua Primeiro de Março então mudou bastante com relação ao seu aspecto e função urbana. Passou a ser sede de grandes empresas e edifícios no decorrer do século 20, assim como ter grandes edifícios de escritórios. No trecho próximo ao Morro de São Bento, a Rua mantinha algumas caracteristicas comerciais com relação à artigos navais, pelo menos até a metade ou mais do século 20.

O Elegante Trecho da Canceller

A antiga Rua Direita ou Rua Primeiro de Março, teve também em determinado tempo, principalmente no século 19, trechos de comércio elegante, principalmente impulsionados pela vinda da familia Real portuguesa para o Brasil em 1808.

Este trecho que era mais largo, situado entre Igreja do Carmo, e Rua do Ouvidor, ou seja depois do Beco dos Barbeiros. Foi neste local onde se instalaram inúmeras confeitarias, cafés e restaurantes que atraiam clientes das classes sociais mais altas.

Descatam-se o Café do Círculo do Comércio, de propriedade de um certo Nicolas Denis, onde no ano de 1835, foi instalada a primeira sorveteria da cidade por um cidadão napolitano. Neste mesmo trecho, ficou famosa a confeitaria de um francês chamado Louis Carceller, que por ser tão conhecida e tão frequentada, passou a dar nome ao local.

A existência da confeitaria foi tão marcante, que mesmo após seu fechamento, aquele trecho da Rua Primeiro de Março continuou conhecido como Carceller até os primeiros anos do século 20. Não era uma denominação oficial do local, mas era tão popularmente conhecida a área como Carceller que os bondes da então Companhia Carris Urbanos que serviam ao local, tinham uma placa nos bondes indicando o ponto terminal de determinadas linhas.

Foi também famoso no local o Hotel e Restaurante do Glogo, um ponto muito frequentado por políticos conhecidos e jornalistas famosos, na verdade e na prática um ponto de reunião.

Do lado oposto, na esquina da Praça XV, em uma construção que foi demolida, ao lado do prédio do Arco do Teles, ficava um outro hotel famoso à sua época, o Hotel de França.

Desde tempos mais remotos, também no mesmo trecho, eram econtradas muitas boticas ou estabelecimento de boticários (equivalente à antigas farmácias). Esta tradição de boticários permaneceu no local atraves das várias farmácias e drogarias que se encontravam no local até a primeira metade do século 20, até a década de 1960 ou mais.

Locais e Construções Importantes Existentes na Atualidade

A Rua Direita ou atual Primeiro de Março, já passou por várias gerações de construções e de edificações, construidas no mesmo local. Em alguns terrenos, podem já ter existido três ou até mais construções feitas após demolição em diferentes épocas. Entretante algumas sobrevivem ao tempo e vem de origens remotas, ainda que possam ter sofrido modificações ao logo de décadas ou de séculos de existênica. Abaixo uma lista das mais importantes edificações e pontos de interesse histórico, artístico, cultural ou turístico.

  1. Igreja de São José
  2. Palácio Tiradentes, construido onde situava-se a Antiga Cadeia Velha
  3. Convento do Carmo, edifício que remete ao século 16
  4. Igreja de N.S.do Carmo, Antiga Sé
  5. Igreja da Ordem Terceira do Carmo
  6. Praça 15, antigo Largo do Paço
  7. Paço Imperial, com uma fachada secundária voltada para a Rua Primeiro de Março
  8. Beco dos Barbeiros, estreita passagem dos tempos coloniais
  9. Prédio do Antigo Tribunal Eleitoral, atualmente Centro Cultural
  10. Edifício dos Correios e Telégrafos
  11. Antiga sede do Banco do Banco do Brasil | Atualmente Centro Cultural Banco do Brasil

Referências

  • Relato de visitas ao local pelo autor do website.
  • Livros diversos sobre o Rio de Janeiro e sua História que foram consultados para dar suporte à edição desta página.