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Largo do Paço | Praça 15 em 1818

Largo do Paço em 1818 | Atual Praça 15

A atual Praça XV de Novembro, era chamada de Largo do Paço na primeira metade do século 19. Veja a descrição da mesma em 1818 comparada com aparência atual em 2012. No local situa-se o antigo palácio dos Vice-Reis. D.João VI, após chegar com a corte Portuguesa ao Brasil, ocupou o palácio por algum tempo para morada e posteriormente para local de despacho e cerimônias.

Praça 15 Vista em 1818 por Debret em Comparação com Situação em 2012

Na primeira metade do século 19, ao tempo de D.João VI, Jean-Baptiste Debret pintou uma cena que imortalizou para sempre um período da história do Brasil, da vida urbana, da arquitetura e da cidade do Rio de Janeiro.

A cena vista no topo desta página mostra o então Largo do Paço retratado em 1818. Muitas das antigas construçõs que aparecem na cena continuam a figurar no cenário da praça 15 nos dias de hoje.

Do lado esquerdo vemos o Paço Real (antigo palácio dos Vice-Reis), que posteriormente seria chamado Paço Imperial, ao fundo o antigo convento do Carmo na Rua Primeiro de Março, a Antiga Sé e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, também na Primeiro de Março.

Do lado direito vemos as antigas construções coloniais, destacando-se o Arco do Teles que se abre para a também rua secular, a Travessa do Comércio.

Imagens comparativas mostram Praça XV em diferentes épocas

Largo do Paço, atual Praça XV em 1818

Acima o Largo do Paço em 1818, em gravura de Debret

Praça XV em 2012

Acima foto da Praça XV em 2012. Clique sobre as imagens para vê-las ampliadas com legendas e comentários.

Em primeiro plano, vemos o Chafariz da Pirâmide, de autoria de Mestre Valentim, que chamava atenção à epoca quase ao centro da Praça XV, antes dos aterros subsequentes que o afastaram do mar. Este chafariz provinha água aos návios e marinheiros.

De ambos os lados do chafariz, são vistos ancoradouros com degrais, onde os barcos de tamanho menores aportavam, se comunicando com os grandes veleiros que chegavam ao Rio de Janeiro, para transporte de passeiros e carga, já que não havia um porto de grande porte.

A Rua Primeiro de Março era chamada de Rua Direita, e nesta época o Largo do Paço era o ponto mais movimentado do Rio de Janeiro, juntamente com a Rua Direita. A construção que aparece parcialmente do lado direito do Paço Real, era o teatro o Teatro São Januário.

O Largo do Paço Descrito por Debret

Em seu livro lançado em Paris, após seu retorno à França, Debret descreve sua estada no Brasil e o que aqui viu, num livro ilustrado com várias pranchas. Abaixo coloco em "itálico" (ou letras inclinadas) ou relato de Debret sobre o Largo do Paço, cujos originais se encontram em seu livro "Viagem Pictoresca e Histórica ao Brasil", no com tradução é de S. Milliet.

Entretanto devo dizer que, ao escrever e editar esta página com o relatos, introduzí alguns comentários meus e também subtítulos, com fins de realçar e marcar didáticamente os assuntos abordadoes. Abaixo, eis o texto dividido por mim em tópicos individuais.

D.João VI, em 1808 ocupa o Paço do Vice-Rei, agora Paço Real e depois muda-se para São Cristóvão

"O Príncipe regente D. João VI, timidamente refugiado no Rio de Janeiro, habitava a contragosto o palacete do vice-rei, situado quase no centro da cidade e que fora antes a Casa da Moeda; porisso, logo se apressaram em satisfazer seus desejos oferecendo-lhe a chácara de São Cristóvão, a três quartos de légua da capital, para que fizesse dela sua residência habitual. E o palácio do vice-rei, outrora tão frequentado, tornou-se apenas um edifício de luxo, utilizado pela Corte, durante algumas horas, nos domingos e dias de beija-mão.

Dona Carlota e D. Pedro continuam a residir no Paço Real

Entretanto, a princesa Carlota, esposa do Regente, especialmente encarregada da educação de suas filhas, não deixou a cidade e ocupou permanentemente os aposentos que lhe eram reservados no centro da fachada lateral do palácio, do lado da grande praça. Seguindo-lhe o exemplo, o jovem príncipe D. Pedro ocupou, com o seu preceptor, o pequeno edifício que termina essa mesma fachada do lado da Capela Real.

Aposentos, Sala do Trono, e Eventos Importantes no Paço Real

A Sala do Trono, instalada no canto da fachada principal, do lado do mar, é iluminada pelas duas últimas janelas à direita do espectador e pelas quatro outras que dão para a grande praça. Os aposentos de honra ocupam o resto da mesma fachada principal.

Durante o reinado de D. João VI, a última janela à esquerda abria-se para a capela particular do rei. Posteriormente, esse cómodo foi anexado aos aposentos da Imperatriz, paralelos à Sala do Trono.

Os aposentos do Imperador ocupam todas as janelas do centro. É no balcão do meio que aparece o Imperador. Foi daí também que D. Pedro anunciou ao povo a Independência do Brasil reconhecida por Portugal, e a ratificação da suspensão do tráfico dos negros.

Mas foi ao contrário, da segunda janela que dá para a praça, na qualidade de vice-rei, que anunciou a aceitação da constituição portuguesa, enquanto o Rei D. João VI, sozinho na primeira janela do mesmo lado sancionava em-voz alta o que o filho dizia, com as seguintes palavras: "Sou por tudo o que acaba de dizer o meu filho"; foi essa a última vez que o Rei apareceu às janelas do palácio do Rio de Janeiro.

Foi ainda desse mesmo balcão que, mais tarde, o Príncipe Real, nomeado Regente com a partida da Corte para Lisboa, notificou o povo de que aceitava o título de defensor perpétuo ao Brasil, comprometendo-se a residir no país.

Finalmente, o povo e os estrangeiros podem ter a certeza de ver a família imperial ocupar sucessivamente todas as janelas nos dias de festa, quando as procissões fazem a volta do largo antes de entrar na Capela imperial.

Passadiço comunicava o Paço Real com o Teatro São Januário

No tempo do vice-rei, uma passagem coberta, à altura do primeiro andar do palácio, comunicava uma das janelas do lado esquerdo do edifício com a sala de espetáculos, construída no edifício colocado no ângulo oposto da rua que o isola desse lado. Esse pequenino teatro, mesquinho de todos os pontos de vista, era o único que a cidade do Rio de Janeiro possuía. Foi suprimido em 1809 e substituído por uma enorme sala, que ainda existe hoje no Largo do Rocio, com o título de Teatro Real de São João.

O Convento do Carmo se tornou anexo ao Paço Real ligado por um passadiço

Toda a parte do fundo da praça, constituída pelo antigo convento do Carmo e sua capela claustral, foi utilizada como anexo ao palácio do rei por ocasião da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro. O ângulo de que foi desenhada a vista esconde ao espectador a passagem sustentada por duas arcadas e praticada à altura do primeiro andar do palácio e que se destina a atravessar a distância que separa o palácio do grande edifício onde um corredor conduz às tribunas, dispostas na Capela Real para os príncipes e seu séquito.

O segundo andar, reservado ao serviço do palácio, é dividido em pequenos aposentos para as pessoas da Corte. No andar térreo e nos páteos, colocaram-se as dispensas, as cozinhas e os aposentos da criadagem empregada no serviço de boca, bem como no transporte das provisões.

A Igreja do Carmo se torna Capela Real e recebe melhoramentos

O frontispício da Capela do Carmo, ainda inacabado em 1808, foi simulado com tábuas para coroar provisoriamente o pórtico da nova capela real, sendo substituído mais tarde, em 1823, por um frontispício muito rico, solidamente construído e com as armas imperiais fundidas em bronze. Deve-se a essa restauração da Capela Imperial a construção de uma nova escadaria muito mais apresentável, com uma grade de ferro em lugar da antiga balaustrada de madeira de bastante mau gosto (ver a prancha da entrega da nova bandeira).

Em fins de 1818, acrescentou-se ao carrilhão da Capela Real um belo sino grande, cujo som grave se ouve muito bem do palácio de São Cristóvão. Esse belo sino, fundido no Rio de Janeiro, foi solenemente batizado na Capela Real com toda a pompa exigida pela presença do Rei, seu ilustre padrinho. Derrubaram-se as duas pequenas arcadas do andar superior da Torre da capela, para se construir uma única, proporcional ao novo sino.

(Nota do autor e criador desta página: Na imagem aparece também a Igreja da Ordem Terceira do Carmo com uma torre ainda inacabada. Ambas as igrejas sofreram alguns acréscimos e modificações até chegar à sua aparência atual. Se quizer, veja mais sobre estas igrejas históricas da Praça XV em outra página deste site.

Lojas finas, armazens e hospedarias do lado direito do Largo do Paço, do lado do Arco do Teles

Toda a parte esquerda da praça, formada por uma série de casas uniformes, solidamente construídas, era, por ocasião de minha chegada, habitada em grande parte por negociantes portugueses fornecedores da Corte, e empregados particulares do Rei; mas, já em 1818, com a afluência dos estrangeiros, vários proprietários transformaram os portões em lojas, alugando-as a uns franceses donos de cafés, que logo utilizaram o primeiro andar para bilhares e mais tarde o resto do edifício para casas de cómodos.

Elegantes taboletas bem pintadas e vitrinas com colunas de mármore, vindas de Paris, enfeitam hoje esses estabelecimentos procurados pelos estrangeiros que desejam passar um momento na cidade ou se hospedar de modo a comunicar-se facilmente com seus navios.

Vê-se, no mesmo lado, uma galeria (passagem muito frequentada) que conduz a pequenas ruas muito antigas, onde se encontra o tipo primitivo do albergue português, cujo balcão se orna de uma enorme lanterna de zinco enfeitada com folhagens do mesmo metal e artisticamente pintada de côr-de-rosa ou verde. A lanterna encima um braço de ferro ao qual se suspende uma taboleta donde se destaca, em fundo branco, a efígie colorida de um animal cujo nome se inscreve ainda em baixo, nos seguintes termos: "isto é um gato, um leão, uma cobra," inscrição ingénua que bem demonstra a ingenuidade do quadro. (Nota do autor do website: A passagem que Debret se refere é o Arco do Teles)

Essas hospedarias destinadas aos habitantes do interior e situadas perto dos lugares de desembarque, comportam armazéns para depósito provisório das mercadorias e se assemelham bastante às da Itália. Vê-se na cidade o mesmo género de taboleta, sem a lanterna, à porta das casas de pasto.

Todo o andar térreo das casas do lado do mar é ocupado por armazéns de secos e molhados, ao passo que a outra extremidade dessa face, que forma o começo da Rua Direita (verdadeira rua Saint Honoré, de Paris) é ocupada pelas lojas dos ricos negociantes do Rio de Janeiro.

Chafariz da Pirâmide e antigo cais

O chafariz luxuoso que decora o cais do Largo do Palácio, destina-se não somente ao abastecimento de água do bairro mas ainda ao dos navios ancorados na baía; escadarias paralelas, abertas de ambos os lados do maciço avançado que lhe serve de base, constituem dois pontos de desembarque, pouco frequentados porém; à esquerda vemos o mais belo trecho desse cais, sobre o qual, de longe, parece assentar a fachada do palácio e cuja escadaria aqui visível é a da direita; a escadaria da esquerda, que não se vê na prancha, não passa a bem dizer de um declive suave, ponto de desembarque efetivo, conhecido pelo nome de rampa do Largo do Palácio, onde as pirogas não têm o direito de acostar.

Pra�a 15 em 1818 comparada com sita��o em 2012

Passe o mouse sobre a imagem acima para alterna-la, e ter uma visão atual da Praça XIV e os aterros que se sucederam.

Observe que, o Chafariz da Pirâmide, obra de Mestre Valentim ao centro, ficava rente ao mar nesta época. As escadarias chegavam nos bancos de areia que formavam o que restava de praia naquela época. Do lado direito vemos o Paço Real e do lado esquerdo o Arco do Teles. Ao fundo da esquerda para a direita, na Rua Primeiro de Março, antiga Rua Direita, vemos o antigo Convento do Carmo, a Igreja do Carmo e Igreja da Ordem Terceira.

Cais de retorno de D.João VI e Corte em 1821

Foi nessa rampa que, a 16 de Setembro de 1815, se imprimiram os primeiros passos da Corte de Portugal; ponto de desembarque em que, mais tarde, a 22 de Abril de 1820, iriam também se imprimir os últimos passos da rainha Carlota e suas três filhas; mas esses vestígios logo seriam apagados pela multidão de portugueses apressados em voltar para Lisboa."

Nota do autor e criador desta página: D.João VI chegou ao Brasil em 1808 e retornou a Portugal em 1821.

Referências Bibliográficas e Iconográficas

  • Viagem Pictoresca e Histórica ao Brasil, de Jean Baptiste Debret
  • Comentários e fotos do autor e criador desta página em função de visitas ao local.