
Com a República concretizada e estabilizada, as finânças saneadas, faltava sanear a capital federal, dando à República áres de modernidade voltada para o novo século. A Avenida Central foi pensada não somente em termos estéticos ou de novas vestes para a República, mas funcionalmente como um complemento das obras do porto do Rio e saneamento da cidade.
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Acima uma foto da Av. Central recém inaugurada, quando ainda quase não havia automóveis. Pode-se ver que o povo acupava tranquilamente a avenida fora da calçada, assim como é visto um "tilbury" ou charrete particular de duas rodas com banco para duas pessoas, conduzida por um cocheiro, que em Londres eram chamadas de "hanson". Ao alternar a foto, passando o mouse por sobre a mesma, pode-se ver uma loja elegante de artigos importados com sua também elegante frequesia e seu caixeiros bem alinhados, trajando ternos bem cortados.
Após a inauguração da Avenida Central, está se tornou o ponto mais elegante e procurado da cidade, tanto pelas pessoas das classes mais altas como também pelos comerciantes de artigos de luxo e moda. As lojas eram maiores e bem mais espaçosas do que as lojas da Rua do Ouvidor e assim, a Av. Central tomou a dianteira.
Não bastasse o fato de a Av. Central ser mais larga e moderna, para a abertura da mesma, foi necessário demolir inúmeras casas e cortas inúmeras ruas ao meio. E rua do Ouvidor foi uma das que teve um pequeno trecho derrubado para dar passagem à nova avenida. Uma famosa revista de época, intitulada Kósmos, anúnciava um novo tempo e a suposta inevitável saída de cena Rua do Ouvidor, que até pouco antes era o principal palco do movimento do Rio de Janeiro. Uma frase em uma das edições da revista preconizava se referindo à Rua do Ouvidor: "Sobre teu destino pesa a melancolia das dinastias que se extinguem. A Avenida Central já te ofusca". Mas não foi assim, a nova Avenida tomou a dianteira, mas a Rua do Ouvidor continuou como um endereço nobre para comécio no século 20 e também endereço de grandes edifícios comerciais.
O comércio na Avenida Central era também amplo e variado assim como o da Rua do Ouvidor, e lá se vendia todo tipo de artigo, tanto voltados para a elegância dos trajes pessoais tanto masculinos como femininos, assim como voltados também para a decoração e bom gosto das finas e aristócraticas residências de seus frequezes e compradores.
Podiam ser encontradas peças de estatuária tanto para jardins de uma mansão como também para decorar o interior da casa com um fina peça de cerâmica, fosse uma estátua romana ou grega. Peças de mobiliário refinado, ao gosto da época, ao estilo Luís XV ou Luis XVI, porcelanas e louças importadas de várias procedências, decoradas com os mais variados motivos, do sagrado ao profano estava à disposição das baronesas e madames. Faziam parte do estoque e mostruário das lojas todo tipo importados, desde requintadas pratarias inglesas à jogos de chá, ou imagens sacras para o elegantes expressarem sua fé, certamente fé nos santos como também fé no dinheiro.
Paris continuava a palavra da moda, afetação esta que já vinha da Rua do Ouvidor. Era possivel encontrar nas lojas da nova avenida com ares de Paris, tanto um ultimo modelo de chapéu de Paris, uma sombrinha, um vestido branco, talhado ao dernier cri da moda francesa, para o deleite para as pessoas da sociedade elegante da época. Tudo seria possivel encontrar, desde que tivesse relação com a moda de alto padrão.
O estilo das construções que norteou de forma unânime a primeira geração de Edifícios da Avenida Central, em seu início eram de estilo eclético, ou seja se baseando ou até mesmo mesclando diferentes estilos e elementos arquitetônicos de diferentes épocas passadas. Era o que havia de mais moderno para a época, olhando para o futuro mas com um pé no passado, ou reverenciando as tradições e referências culturais.
Interessante que a ampla Avenida recém aberta, era um misto de presente e passado, não somente em termos arquitetônicos, mas também em termos de costumes em seus primeiros anos de existência, como comprova a foto mostrada mais acima. A elegância da avenida nem sempre nestes primeiros anos era voltada somente para o novo século que estava nascendo. Nesta foto podem ser vistos tanto o automóvel ainda em poucas unidades, que se voltava para o século 20, como também era possivel se ver "coches" e "tílburis", que quando propriedade para uso individual, eram veiculos aristocráticos de tração animal vindos do século 19. Mas eram vistos também veículos de carga, como carroças e até carrinhos de carga empurrados ou puxados por entregadores.
A Avenida Central era também uma passarela para o desfile de senhoras maduras e mais conservadoras, que trajavam geralmente vestidos escuros, e chegavam em seus "tílburis", uma espécie de charrete, nestes caso particular, com cobertura de lona e bancos estofados, guiada por um cocheiro a seu serviço. Geralmente vinham de mansões nas Laranjeiras ou da elegante Rua São Clemente em Botafogo. Uma vez lá chegando, seus cocheiros bem trajados ficavam esperando nas portas das lojas, enquanto as aristocráticas senhoras eram atendidas pelos caixeiros (balconistas como eram chamados naquela época). E atensiosos os caixeiros não mediam esforços para agradar seus clientes, mostrando e desfilando as mais finas mercadorias importadas.
Estas mesmas senhoras mais maduras, que lançavam críticas ferinas aos novos tempos e novos costumes, não resistiam aos artigos expostos. Podiam até não maquiar ou pintar seus rostos como suas filhas, ou andar nos barulhentos automóveis da época junto com seus irmãos, uma ousadia para aqueles tempos, mas não resistiam aos atrativos do progresso e à mercadorias expostas.
Lojas grandes e imponentes eram chamadas de "magazines", e dentre elas destacava-se a magazine Colombo, que pertencia ao mesmo dono de uma loja renomado, chamada de Torre Eiffel, situada na Rua do Ouvidor. Novamente a lingua francesa e Paris até nos nomes da lojas e estabelecimentos. Durante o auge da influência parisiense, existiu uma requintada e famosa loja chamada "Notre Dame de Paris". Tão famosa era esta loja, que não era incomum que, as melhores lojas de cidades do interior do Brasil se chamassem também "Notre Damme de Paris".
Além das magazines a Avenida Central era também sede de poderosas empresas, destacando-se entre elas a o Lloyd Brasileiro, Guinle & Cia, a Companhia Docas de Santos, e uma empresa de seguros chamada A Equitativa. Os prédios eram imponentes, e a arquitetura dos edifícios imitava Paris, com predominância do eclétismo (mistura de estilos) assim como de simetria e elementos neoclássicos. Não somente a arquitetura, mas todo o mobiliário urbano também imitava Paris.
Sedes de grandes jornais se instalaram no local, como a do Jornal do Brasil e Jornal do Comércio, assim como as sedes do Jockey Club e do Derby Club, que ostentavam suas fachadas rebuscadas no estilo "bolo de noiva", assim como os demais edifícios construidos na época da abertura. "Bolo de Noiva" é um termo caricato usado pelos críticos da arquitetura eclética. Confeitarias, cafés e restaurantes chics também se estendiam ao longo da Avenida, completando o ambiente de requinte que tudo lembrava Paris.
O Hotel Avenida, se tornou um dos maiores destaques da avenida, por sua bela arquitetura, assim como por possuir uma galeria que se tornou ponto de referência, a Galeria Cruzeiro. Este hotel foi demolido no final dos anos de 1950 e hoje existe no seu lugar o Edifício Central, no número 156.
Os edifícios governamentais ou empreendidos pelo estado e município, por sua vez também se destacavam por sua beleza e suntuosidade. Entre estes edifícios destacam-se o Teatro Municipal, a Escola Nacional de Belas Artes (atual Museu Nacional de Belas Artes), o edifício da Biblioteca Nacional e o Prédio do antigo Supremo Tribunal Federal.
A Avenida Central se tornaria o cartão de visitas da República, o anúnciar de uma nova hora, de um pais próspero e voltado para a modernidade, servindo de modelo para ruas amplas e largas, moderna e saneada. Era então a espinha dorsal e o centro das atenções, tanto com relação às altas finanças, como também da cultura, era por onde os elegantes transitavam.
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