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Entrudo no Carnaval do Rio de Janeiro

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O "Entrudo" era um tipo de brincadeira de carnaval, possivelmente trazido pelos portugueses da Índia. Como brincadeira feita nas ruas, era tida como uma manifestação festiva desagradável e de certo modo nociva e irritante de comemorar o carnaval para quem não apreciava as brincadeira. O entrudo era a principal manifestação do Carnaval do Rio de Janeiro na primeira metade do século 19.

O Entrudo era uma gerra de brincadeira feita com limões de cheiro

Os participantes que saíam às ruas em grupos jogavam nas pessoas ovos e bolas de cera cheias de água (limões de cheiro), e não respeitavam nada nem ninguém. Em alguns casos, ao invés de jogar água perfumada, jogavam líquidos mal cheirosos. Jogavam também farinha e pós de diversas substâncias em grandes quantidades, muitas vezes causando incidentes sérios. Devido à estes distúbios, esta prática foi proibida em 1853.

Cronológicamente falando, o entrudo é uma manifestação e brincadeira de carnaval que surgiu antes dos cordões carnavalescos e grandes sociedades carnavalescas.

O Entrudo existia também como brincadeira familiar e saudável, onde o intuito era se divertir de forma expansiva mas não tanto quanto o entrudo "popular" onde a brincadeira em alguns casos se tornava muito agressiva.

Pela gravura abaixo, de 1822, ano da independência do Brasil, pode-se ver que a brincadeira não se restringia somente aos limites da rua. A gravura mostra a brincadeira do entrudo no interior de uma residência. Entretanto a brincadeira se expande para o exterior da casa, e na gravura é possivel ver os foliões lançando as "bolas de cera" ou "limões de cheiro" através das janelas em direção às casas vizinhas. A casas do período colonias e do primeiro e segundo reinado eram muito próximas umas das outras e as ruas estreitas facilitando a "guerra" de farinha. Observe que em bandejas são oferecidas as "bolas de cera" que foram preparadas para serem atiradas durante as brincadeiras.

Os "Entrudos" aconteciam em muitas das principais cidades do Brasil, às vezes com maior ou menor grau de participação das populações, e também com maior ou menor nível de agressividade quando feito nas ruas.

Entrudo | Brincadeira carnavalesca no Rio de Janeiro no início do século 19Cenas do entrudo nas ruas do Rio de Janeiro no início do século 19

Acima ilustração de 1822 mostrando a brincadeira do entrudo dentro de uma residência e com os moradores e convidados jogando limões de cheiro nas janelas vizinhas. Na outra imagem, do lado direito, uma ilustração de Debret, do início do século 19, também mostrando a brincadeira do entrudo nas ruas do Rio de Janeiro. Na cena se vê uma mulher com uma bandeja vendendo limões de cheiro, foliões atirando os limões, um outro folião com uma bisnaga d´agua e alguém passando farinha na face de uma vendedora ambulante.

Visão caricata do carnaval carioca no final século 19

Através da antiga ilustração de 1880 pode-se ver que o costume e brincadeira do "entrudo", de certo modo persistia, vindo dos tempos de D. João VI até o final do Século 20.

Carnaval antigo onde "o entrudo" é representado por Angelo Agostini

O artista artista e caricaturista Angelo Agostini retrata a brincadeira em 1880 quando esta era feita na base da água, lançada com bisnagas e também farinha de trigo.

Obseve que as pessoas jogam água com lanças perfumes e esguicham também água das janelas das casas. Algumas pessoas aparecem fantasiadas, e mesmo quem não gostasse da brincadeira, era alvo dos foliões.

Entrudo no Carnaval do Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor - Ilustração de 1884

Na Ilustração acima, de 1884, Angelo Agostini retrata "O Entrudo", uma antiga forma de carnaval de rua. Observe o vendedor de limões de cheiro e os lançamentos dos mesmos.

Debret Descreve o Carnaval Carioca entre 1816 e 1830

Após retornar à França, o pintor Debret escreveu um livro onde apresentava suas pranchas e pinturas feitas no Brasil, assim como textos relatando suas experiências e o que viu aqui. Debret permaneceu anos no Brasil, primeiro à convite de D.João VI e depois sob o estímulo de D.Pedro I, tendo retornado ao seu pais após a abdicação de Pedro I.

Abaixo o texto de Debret, em que ele descreve a gravura acima e também acrescenta mais detalhes sobre o Carnaval Carioca em 1830.

"O carnaval no Rio e em todas as províncias do Brasil não lembra em geral nem os bailes nem os cordões barulhentos de mascarados que, na Europa, comparecem a pé ou de carro nas ruas mais frequentadas, nem às corridas de cavalos chucros tão comuns na Itália.

Os únicos preparativos do carnaval brasileiro consistem na fabricação dos limões-de-cheiro, atividade que ocupa toda a família do pequeno capitalista, da viúva pobre, da negra livre que se reúne a duas ou três amigas, e finalmente das negras das casas ricas que todas, com dois meses de antecedência e à força de economias, procuram constituir sua provisão de cera.

O limão-de-cheiro, único objeto dos divertimentos do carnaval, é um simulacro de laranja, frágil invólucro de cera de um quarto de linha de espessura e cuja transparência permite ver-se o volume de água que contém. A cor varia do branco ao vermelho e do amarelo ao verde; o tamanho é o de uma laranja comum; vende-se por um vintém e as menores a dez réis. A fabricação consiste simplesmente em pegar uma laranja verde de tamanho médio, cujo caule é substituído por um pedacinho de madeira de quatro a cinco polegadas que serve de cabo, e mergulhá-la na cera derretida.
Operada essa imersão, retira-se o fruto ligeiramente coberto de cera e mergulha-se nágua fria, a fim de que se revista de uma película de um quarto de linha de espessura, bastante resistente, entretanto. Parte-se em seguida esse molde, ainda elástico, a fim de retirar a laranja e, aproximando-se as partes cortadas, solda-se o molde de novo com cera quente, tendo-se o cuidado de deixar a abertura formada pelo pedaço de madeira para a introdução da água perfumada com que deve ser enchido o limão-de-cheiro.

O perfume de canela, que se exala de todas as casas do Rio de Janeiro durante os dois dias anteriores ao carnaval, revela a operação, fonte dos prazeres esperados.

Para o brasileiro, portanto, o carnaval se reduz aos três dias gordos, que se iniciam no domingo às cinco horas da manhã, entre as alegres manifestações dos negros já espalhados nas ruas a fim de providenciarem para o abastecimento em água e comestíveis de seus senhores, reunidos nos mercados ou em torno dos chafarizes e das vendas.

Vemo-los aí, cheios de alegria e de saúde, mas donos de pouco dinheiro, satisfazerem sua loucura inocente com a água gratuita e o polvilho barato que lhes custa cinco réis.

Nesses dias de alegria, os homens de cor mais turbulentos, embora sempre respeitosos para com os brancos, reúnem-se depois do jantar nas praias e nas praças, em torno dos chafarizes, a fim de se inundarem de água, mutuamente, ou de nela mergulharem uns aos outros por brincadeira; a vítima, ao sair do banho, pula e faz contorções grotescas, com as quais dissimulam às vezes o seu amor-próprio ferido.

Quanto às mulheres negras, somente se encontram velhas e pobres nas ruas, com o seu tabuleiro à cabeça, cheio de limões-de-cheiro vendidos em benefício dos fabricantes.

Mas os prazeres do carnaval não são menos vivos entre um terço pelo menos da população branca brasileira; quero referir-me à geração de meia-idade, ansiosa por abusar alegremente, nessas circunstâncias, de suas forças e sua habilidade, consumindo a enorme quantidade de limões-de-cheiro disponíveis.

Domingo ainda, mas depois do almoço, o vendeiro procura provocar o vizinho da frente, com incidentes insignificantes, a fim de atraí-lo à rua e jogar-lhe o primeiro limão ao rosto.

Alguns jovens franceses empregados no comércio, passeiam como se fossem sentinelas avançadas, armados de limões, e aproveitam a oportunidade para inundar uma senhora, também francesa, ocupada no fundo da loja semifechada.

Vêem-se também jovens negociantes ingleses, consagrando de bom grado 12 a 15 francos a um quarto de hora de brincadeira lícita, passear com orgulho e arrogância, acompanhados por um homem negro vendedor de limões, cujo tabuleiro esvaziam pouco a pouco, jogando os limões às ventas de pessoas que nem sequer conhecem.

Alguns gritos, entrecortados de gargalhadas, revelam ao locatário do primeiro andar, cujo cómodo de frente já foi esvaziado de seus móveis, por precaução, que chegou a hora de abrir as janelas, ou para evitar que se quebrem os vidros ou para se preparar ele próprio para a batalha de limões.

Alguns curiosos assomam aos balcões e logo desaparecem e a manhã toda decorre entre escaramuças. Depois da refeição, entretanto, sentindo-se todos dispostos ao combate, correm às janelas e alegremente solicitam, de longe, e com gestos, licença para começar; ao mais ligeiro assentimento alguns limões trocados com habilidade e pontaria dão o sinal do ataque geral; e, durante mais de três horas, vê-se grande quantidade desses projéteis hidróferos cruzando-se de todos os lados nas ruas da cidade e estourando contra um rosto, um olho ou um colo.

A ducha decorrente, de mais ou menos um copo de água aromática, suporta-se agradavelmente em vista do calor extremo da estação.

É natural que, após semelhante combate, toda a sociedade de um balcão, molhada como ao sair de um banho, se retire para mudar de roupa; mas logo volta com o mesmo entusiasmo. E uma moça sempre se orgulha do grande número de vestidos que lhe molharam nesses dias gloriosos para seus dotes de habilidade".

Texto de Debret, tradução. de Sérgio Milliet, ed. cit., p. 219-220).

Referências